É daquelas pessoas ‘sem sorte nenhuma’, a quem ‘tudo corre sempre mal’? Cuidado: o mais provável é estar a praticar autossabotagem sem se aperceber.

Autossabotagem: como deixar de ser o seu pior inimigo

Muitas vezes as coisas correm-nos mal porque há fatores externos que não controlamos. Ficamos doentes e não podemos ir à reunião agendada, alguém se atrasa com um prazo e o nosso trabalho fica comprometido, uma emergência familiar obriga-nos a cancelar um jantar. Mas, uma parte significativa das vezes em que algo corre mal, o responsável não é o azar nem os outros: somos nós próprios. De forma mais ou menos inconsciente, boicotamos os nossos próprios planos e desejos sem ‘ajuda’ de ninguém. A nossa mente trabalha contra nós não por nos querermos prejudicar intencionalmente, mas porque nos queremos proteger: se não arriscarmos, não sofreremos; se não fizermos, não teremos hipóteses de errar; se não investirmos, não teremos expectativas frustradas.

Como se manifesta a autossabotagem?

Os comportamentos de autossabotagem mais comuns são a procrastinação, os conflitos interpessoais, o binge eating e, em casos mais extremos, a automedicação com substâncias psicoativas ou álcool e a automutilação”, enumera a psicóloga clínica Daniela Esteves. A maioria das vezes a pessoa não tem noção de que faz isso a si própria, mas ser alguém com muito ‘azar’ pode ser um sinal de alerta. A autossabotagem é um automatismo que faz com que, ciclicamente, os nossos pensamentos e comportamentos nos conduzam aos mesmos problemas.

O que está na sua origem?

Há muitos fatores que podem estar por detrás deste tipo de comportamento e quase todos têm a sua raiz na infância. Daniela Esteves defende que há quatro deturpações de pensamento que são fundamentais para explicar a autossabotagem:

  • Baixa autoestima | Muita gente sente que não merece sucesso ou felicidade, por isso quando os resultados do seu trabalho levam a coisas boas eles ‘atacam-se’ a si mesmos. E porquê? “O conceito de dissonância cognitiva responde a essa questão: as nossas ações tendem a estar em sincronia com as nossas crenças e quando não estão, esforçamo-nos por alinhá-los novamente.” Ou seja: fracassar é mau, mas ter sucesso, contrariando as nossas crenças, parece pior ainda.
  • Necessidade de controlo | Se já sabemos que vai correr mal e correr mesmo, não somos surpreendidos. “É melhor controlar o próprio fracasso do que encarar a surpresa. A autossabotagem pode não ser boa mas, para quem a faz, é melhor do que perder o controlo das situações.”
  • Desejo de familiaridade | Por natureza, gostamos de consistência. “Se estamos habituados a ser ignorados, maltratados ou explorados, é estranhamente reconfortante colocarmo-nos nessa posição.” Embora a situação não nos faça felizes, acabamos por preferi-la face ao desconhecido.
  • Puro tédio | Por vezes, escolhemos ter uma briga ou promover um drama apenas para introduzir alguma excitação na vida. “Além disso, se estivermos presos no caos temos uma desculpa para podermos abrandar a energia criativa e de concretização.” Esta é, portanto, uma desculpa para não concretizar planos.

Como superar o círculo vicioso?

Pôr um ponto final na autossabotagem – ou, como diz a psicóloga Daniela Esteves, “parar de serrar o galho da árvore em que estamos sentados” – começa na consciencialização. Para sair do círculo vicioso, há que mudar de perspetiva. Por um lado, o autossabotador tem de ter noção do que faz, responsabilizando-se; por outro, tem de reconhecer que cada problema repetido não é uma confirmação da sua incapacidade, mas uma oportunidade para agir de forma diferente e obter um resultado melhor. A psicóloga aponta, ainda, cinco medidas para começar a lidar com o problema:

1) Perceber que pensamentos o estão a travar

Devemos identificar que pensamentos estão a impedir a concretização de algum objetivo importante e procurar criar um mindset mais propício. Por exemplo: “Não posso desfazer o passado, mas posso influenciar o meu futuro.”

2) Vencer o medo dos seus pensamentos

Quando lutamos contra os nossos pensamentos estamos a perder a oportunidade de os trabalhar, reforçando os padrões negativos. Pelo contrário, devemos reconhecer e admitir os nossos pensamentos, mas enfatizar que são apenas pensamentos e não a realidade.

3) Lidar com as emoções

As emoções mais ou menos intensas não tendem a desaparecer por si mesmas apenas porque tentamos não sentir. Reconhecer as emoções e tentar processá-las previne o descontrolo emocional.

4) Organizar-se

Para concretizar objetivos convém trabalhar também o lado racional e organizar a agenda, as prioridades, as listas, os contactos.

5) Relativizar

Lembre-se que todos nós temos medos e ansiedades e que, apesar disso, muitas pessoas continuam a tentar e a perseverar. Por que seria diferente consigo?

 

Sabia que…

Os pensamentos derrotistas (‘nunca acontece nada como eu quero”, “não vou ser capaz”, “gosto desta pessoa, mas ela não vai gostar de mim”) são o caminho mais curto para, de facto, não se ser capaz e não se ser apreciado? O sociólogo Robert K. Merton, da Universidade de Columbia (EUA) estudou nos anos ‘60 esta mecânica, à qual chamou profecia autorrealizável: a partir do momento em que temos uma crença, passamos a agir como se ela fosse real, o que nos leva a comportamentos que acabam por concretizá-la.