O doente é um aliado do prescritor na toma correta da medicação. Saiba o que pode e deve fazer para evitar erros com medicamentos.

Evitar erros com medicamentos

“O doente é a última linha de defesa contra eventuais erros no que toca à medicação.” Quem o afirma é a Mayo Cinic, organização sem fins lucrativos norte-americana que se dedica à investigação e educação na área clínica. O papel ativo do doente nos seus próprios cuidados de saúde é, de resto, considerado salutar em todos os âmbitos, não apenas no que toca a evitar erros com medicamentos.

“A qualidade dos cuidados de saúde é um trabalho de equipa. O doente desempenha um papel importante”, advoga a também norte-americana Agency for Healthcare Resarch and Quality (AHRQ). Segundo a mesma fonte, “doentes pouco envolvidos e informados têm menor probabilidade de aceitar a escolha de tratamento do médico e de fazer o que é necessário para que o tratamento funcione.”

Falar com o médico e restantes prestadores de cuidados de saúde, colocar dúvidas e fornecer informação é essencial para garantir os melhores cuidados. Além de ajudar a construir uma relação de confiança, os estudos mostram que conduz a melhores resultados e a maior qualidade, segurança e satisfação. Com estes princípios em mente, reunimos as principais recomendações daquelas entidades para evitar erros com medicamentos.

  1. Faça uma lista de todos os medicamentos que toma

    Esta lista deve incluir o nome de todos os medicamentos que toma e quando o faz. Deve abranger medicamentos sujeitos e não sujeitos a receita médica, suplementos nutricionais, vitaminas, plantas medicinais, vacinas e qualquer medicação intravenosa. Deve levar esta lista consigo em todas as consultas e partilhar uma cópia com um familiar ou amigo próximo, o que pode ser importante em caso de emergência médica.

  2. Prepare-se antes de cada consulta

    Partilhar a informação mais atualizada sobre o seu estado de saúde com quem lhe presta cuidados de saúde é essencial para evitar erros com medicamentos. Além da lista dos medicamentos que toma, deve indicar aqueles a que é alérgico ou com que tenha tido problemas no passado; se tem alguma doença crónica ou outro problema de saúde; se está grávida ou a tentar engravidar. Igualmente importante é, antes de cada consulta, investir algum tempo a pensar no que gostaria de perguntar ao médico, para que o tempo de consulta seja proveitoso e todos os pontos fiquem esclarecidos. Lembre-se que colocar dúvidas permite prevenir eventuais problemas.

  3. Faça perguntas sobre os medicamentos prescritos

    O papel ativo do doente implica que recolha o máximo de informação sobre os medicamentos que toma. Neste sentido, há um conjunto de questões que deve colocar ao médico quando começa a tomar um novo medicamento:

    • Qual é o nome (genérico ou comercial) deste medicamento?
    • Qual é o efeito do medicamento? Quanto tempo vai demorar a fazer efeito?
    • Qual a dose que vou tomar e durante quanto tempo?
    • O que devo fazer se me esquecer de tomar uma dose?
    • O que devo fazer se acidentalmente tomar mais do que a dose recomendada?
    • Há alguns alimentos, bebidas, outros medicamentos ou atividades que deva evitar enquanto tomo este medicamento?
    • Quais são os efeitos secundários possíveis? O que devo fazer se algum deles ocorrer?
    • Este medicamento vai interferir com os outros medicamentos que tomo? De que forma?

    Repita o que lhe é dito, para se certificar de que percebeu tudo bem, e tome notas ou peça para gravar as instruções no telemóvel. Se mesmo assim ficar com dúvidas, contacte o médico ou recorra à ajuda do farmacêutico.

  4. Se não perceber a letra ou a linguagem do médico, pergunte

    Em Portugal as receitas eletrónicas já evitam, em parte, este problema. Se, ainda assim, tiver um documento com caligrafia do médico, assegure-se de que sabe o que está escrito antes de sair da consulta. Peça também ao médico que indique na receita, além da forma como toma o medicamento (ex: todos os dias de manhã), o motivo da toma (ex: tomar todos os dias de manhã para a hipertensão). Questione-o sobre todos os aspetos que não perceber durante a consulta e peça-lhe que explique os resultados de análises e exames.

  5. Seja fiel à sua farmácia

    Procure aviar as receitas sempre na mesma farmácia, de forma a poder tirar partido da relação de proximidade com o farmacêutico. Se tiver que recorrer a outra farmácia, deve informar sobre a sua história clínica e fornecer uma cópia da sua medicação. Cada vez que aviar uma receita, certifique-se de que o medicamento que lhe dão é o que está na receita. O farmacêutico é o profissional indicado para esclarecer sobre as indicações nos rótulos dos medicamentos, orientar sobre a sua toma e eventual esquecimento, apontar a melhor forma de os armazenar e transportar, entre outros aspetos que podem evitar erros com medicamentos.

  6. Guarde os medicamentos de forma adequada

    Defina um único local para este efeito, de forma a ter todos os medicamentos juntos. O local deverá ser fresco e seco. Deve verificar as recomendações de cada medicamento relativas à forma como deve ser guardado (por exemplo, alguns devem ser guardados no frigorífico). Garanta que não estão acessíveis a crianças ou animais de estimação colocando-os, por exemplo, numa caixa trancada ou num armário. É importante que mantenha cada medicamento na sua embalagem original, com o respetivo folheto informativo, para poder consultar toda a informação sempre que necessário.

  7. Encontre estratégias para não se esquecer nem baralhar nas tomas

    As listas de papel fornecidas em algumas farmácias permitem evitar erros e esquecimentos na toma de medicação. Também existem dispensadores automáticos e caixas organizadoras em que os medicamentos são arrumados por hora e dia. Deve, no entanto, aconselhar-se com o seu farmacêutico sobre estes sistemas que implicam retirar os medicamentos da embalagem de origem, já que há alguns riscos associados, como o da troca de medicamentos.

  8. Informe-se sobre a melhor forma de administrar os medicamentos

    Não assuma que pode mastigar, partir ou esmagar um comprimido em vez de o engolir. Fazê-lo pode alterar a forma como o medicamento é absorvido. No caso dos medicamentos líquidos, usar uma seringa é mais fiável do que recorrer a uma colher de sobremesa, para medir o volume a administrar.

  9. Não partilhe medicamentos nem tome os de outras pessoas

    Uma receita médica é pessoal e intransmissível, não devendo por isso ser partilhada com outras pessoas. A partilha de medicamentos está associada ao uso desadequado ou desnecessário de medicamentos e pode representar riscos para a saúde individual e para a saúde pública. Especificamente no caso dos antibióticos, está na origem da propagação das bactérias resistentes a antibióticos, um problema global e grave que limita o número de antibióticos disponíveis para o tratamento de doenças.

  10. Entregue os medicamentos fora de uso na farmácia

    Os medicamentos fora de uso não devem ser colocados no lixo normal. Procure na sua farmácia o contentor da Valormed, entidade que assegura a recolha de embalagens vazias e medicamentos fora de uso. Anualmente, há também uma campanha da Associação Médica Internacional (AMI) para recolha de radiografias.

  11. Comunique efeitos adversos

    Se suspeitar de uma reação adversa a um medicamento, deverá comunicá-la ao seu médico ou farmacêutico. Estas reações deverão, depois, ser comunicadas ao Infarmed através do portal RAM. A notificação é importante para a monitorização contínua da segurança e a avaliação do benefício/risco dos medicamentos.

 

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