É um dos 10 tipos de cancro mais comuns, mas pode ser curado se detetado precocemente. Aprenda a reduzir o risco e a identificar os sinais de alarme.

Cancro da bexiga: reduzir o risco e detetar precocemente

O cancro da bexiga é, segundo a Organização Mundial de Saúde, um dos dez tipos de cancro mais comuns em todo o mundo. É também o quarto tipo de cancro mais frequente nos homens, afetando sobretudo os que têm mais de 65 anos. A probabilidade de eles sofrerem desta doença é duas a três vezes superior à das mulheres – 80% dos casos afetam o sexo masculino. No entanto, “apesar de ser mais frequente nos homens, a gravidade é maior nas mulheres”, sublinha o urologista Miguel Ramos.

Se detetado precocemente, o cancro da bexiga pode ser curado. No entanto, segundo a Sociedade Portuguesa de Oncologia, cerca de 1 em cada 10 cancros da bexiga são diagnosticados num estádio avançado de desenvolvimento. Para combater esta estatística, é imperativo que todos – homens e mulheres – evitem os fatores de risco e se mantenham atentos a possíveis sinais de alarme.

Diferentes tipos de cancro da bexiga

Embora não estejam identificadas as causas do aparecimento e progressão do cancro da bexiga, a doença inicia-se na mucosa que reveste o interior da bexiga: o urotélio de células de transição.  À medida que o cancro se desenvolve este invade a camada muscular da bexiga, passando a ser denominado de tumor invasivo.

“Existe uma grande diferença entre os tumores superficiais e invasivos quanto ao tratamento e prognóstico”, salienta Miguel Ramos. Os tumores invasivos podem continuar a crescer, invadir os tecidos circundantes da bexiga ou disseminar-se para outras partes do corpo, como o pulmão, o fígado ou os ossos. A este processo chama-se metastização.

Há vários tipos de tumor que afetam este órgão, mas quando se fala em cancro da bexiga o que está em causa é, habitualmente, o carcinoma. Como explica o urologista, este divide-se em três subtipos:

  • Carcinoma de células de transição | “É o tumor mais frequente, representando 90% dos casos”, revela o médico. Há casos em que este tipo de tumor não é invasivo, isto é, está localizado apenas na superfície do revestimento interno da bexiga. Noutros casos, é invasivo, ou seja, invadiu as camadas celulares mais profundas da mucosa ou espalhou-se por outras partes do organismo.
  • Carcinoma espinocelular, epidermóide ou escamoso | Cerca de 8% dos carcinomas da bexiga são deste tipo. Quase todos os carcinomas deste tipo são invasivos na altura do diagnóstico.
  • Adenocarcinoma |É o tipo de carcinoma mais raro, representando apenas 2% dos carcinomas da bexiga. Geralmente, é um tumor invasivo e exige um tratamento mais agressivo.


Evite estes fatores de risco
 

“A melhor e única defesa contra o cancro da bexiga consiste em deixar de fumar e evitar os restantes fatores de risco”, afirma de forma perentória Miguel Ramos. O tabagismo, sublinha o especialista, é “o principal” fator de risco para a doença. Segundo a American Cancer Society, provoca cerca de metade dos casos da doença, sendo a probabilidade de a desenvolverem pelo menos três vezes maior para os fumadores face aos não fumadores.

A este fator de risco somam-se outros que podem ser controlados:

  • Exposição a certas substâncias, como produtos químicos para lavagem de roupa ou usados para produzir borracha, tintas, cabos, papel ou têxteis em ambiente industrial.
  • Alguns medicamentos utilizados no tratamento de outras doenças podem aumentar o risco de cancro da bexiga. O uso de alguns fármacos de quimioterapia ou radioterapia para tratar outros tipos de cancro pode aumentar ligeiramente o risco de carcinoma da bexiga.
  • Não beber líquidos suficientes. Segundo a American Cancer Society, as pessoas que ingerem muitos líquidos, especialmente água, tendem a apresentar incidência mais baixa de cancro da bexiga.
  • Presença de arsénio na água potável.O arsénio tem sido associado a um maior risco de cancro da bexiga. Esta é uma substância altamente tóxica utilizada por várias indústrias, que pode contaminar os lençóis de água subterrâneos e, consequentemente, o abastecimento de água. A probabilidade de ser exposto ao arsénio depende da região geográfica e da forma como é feito o abastecimento.
  • Infeção por Schistosoma haematobium, um parasita existente em África. Esta é uma causa muito frequente de carcinoma espinocelular.

Fatores de risco não controláveis

Estão também identificados fatores de risco que não podem ser controlados:

  • Segundo a American Society of Clinical Oncology, a possibilidade de se vir a desenvolver cancro da bexiga aumenta com o passar dos anos.
  • Os homens têm duas a três vezes mais risco de desenvolver cancro da bexiga do que as mulheres.
  • As pessoas com familiares que tiveram cancro da bexiga parecem ter um ligeiro aumento da probabilidade de vir a desenvolver a doença. Não é conhecido nenhum gene implicado nesta associação, podendo esta relação estar relacionada com a exposição ao mesmo ambiente.
  • Quem já teve cancro da bexiga tem maior probabilidade de desenvolver novamente a doença.

Esteja atento a estes sinais

Não existe nenhum rastreio recomendado para esta neoplasia, pelo que é fundamental a atenção aos sinais de alarme. Os principais sinais de alarme são:

  • Sangue na urina | “A presença de sangue na urina é o sintoma mais frequente de cancro na bexiga e que deve levar as pessoas a procurar o médico”, alerta o urologista. Este sinal pode aparecer isolado ou acompanhado de outros.
  • Aumento da frequência miccional | Vontade de esvaziar a bexiga com mais frequência do que é habitual, ou sensação de necessidade de urinar sem o conseguir.
  • Dor abdominal | Costuma surgir quando a doença já se encontra num estado mais avançado.

Estes sinais e sintomas não são exclusivos do cancro da bexiga, podendo manifestar-se em muitas outras patologias – por exemplo, uma infeção urinária. Este facto dificulta a deteção da doença, mas reforça a necessidade de não desvalorizar os sinais e sintomas e procurar ajuda médica. Só assim poderá ser efeito um diagnóstico adequado.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico do cancro da bexiga “requer uma avaliação médica detalhada e a realização de exames complementares de diagnóstico, como análises à urina, ecografia e cistoscopia, um exame endoscópico que permite observar o interior da bexiga e fazer uma biopsia, caso seja necessário”, salienta Miguel Ramos. Já a forma de tratamento depende de vários fatores, incluindo o tipo e localização do tumor, o nível de invasão da parede da bexiga e tecidos envolventes e a disseminação para outros tecidos:

  • Tumores superficiais

Na maioria dos casos, no momento do diagnóstico, os tumores são superficiais e curáveis. “Isso significa que estão confinados ao epitélio que reveste o interior da bexiga e que podem ser tratados com uma cirurgia de resseção transuretral (procedimento que consiste em remover o tumor de dentro da bexiga sem necessidade de incisão). No entanto, apresentam uma elevada taxa de recidiva”, constata o urologista.

Após a cirurgia, pode ser aplicada quimioterapia para tentar prevenir o aparecimento de eventuais recorrências ou imunoterapia intravesical.

  • Tumores invasivos

São invasivos os tumores que invadem a camada muscular da bexiga ou se espalham para gânglios linfáticos da região ou para outros órgãos. Sendo mais agressivos, requerem um tratamento mais invasivo, que geralmente consiste numa cirurgia com remoção de toda a bexiga e gânglios linfáticos regionais. Esta pode ser precedida ou seguida por quimioterapia.

Em situações em que o tumor ultrapassa o limite da parede da bexiga invadindo a cavidade pélvica e se disseminou para outros órgãos (metástases), poderá ser realizada cirurgia e /ou quimioterapia paliativa.

Estudos recentes apontam também a imunoterapia como uma alternativa terapêutica para os doentes com cancro da bexiga em estado avançado, nos quais o tratamento de primeira linha (quimioterapia) já não é eficaz. Nestes casos, embora não se consiga a cura da doença, é possível prolongar a sobrevivência e a qualidade de vida dos doentes.

 

Sabia que…

O tumor da bexiga é o quarto tumor mais prevalente em Portugal e o segundo mais frequente no trato urinário. 

2400

Número de novos casos diagnosticados por ano em Portugal, segundo a Organização Mundial de Saúde.

 

Colaboração

Prof. Dr. Miguel Silva Ramos
Urologista no Centro Hospitalar do Porto