O envelhecimento é um processo natural que não tem de ser sinónimo de doença ou incapacidade. Mas, mesmo quando é, há possibilidade de continuar a ser feliz.

Como ter um envelhecimento feliz

Na velhice queremos acrescentar anos à vida, mas também – e sobretudo – acrescentar vida aos anos. O aumento da esperança média de vida trouxe novos desafios à terceira e quarta idade. Atenta a esta tendência, a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou, em 2002, um novo paradigma: o de envelhecimento ativo, definido como “o processo de otimização das oportunidades para a saúde, participação e segurança, para melhorar a qualidade de vida das pessoas que envelhecem.” Mas foi a Psicologia Positiva que determinou o surgimento de um novo conceito, o do envelhecimento positivo, que vai ainda mais além. Olhando para os determinantes psicológicos  e  promotores  de  bem-estar, tenta-se responder à pergunta: como se pode envelhecer feliz?


A ciência do envelhecimento

“Não há uma receita para envelhecer feliz, mas há muitas pistas”, defende Maria Alexandra Veiga de Araújo, mestre em Psicologia Positiva. Há, desde logo, as pistas fornecidas pelo Estudo do Desenvolvimento Adulto, da Universidade de Harvard. Este é o estudo mais longo de sempre sobre o desenvolvimento adulto e o bem-estar ao longo da vida: acompanhou 824 rapazes desde a adolescência até ao fim da vida. O programa já vai no quarto diretor, Robert Waldinger, mas o seu antecessor, o psiquiatra George Vaillant, foi talvez o mais conhecido. “Num mundo que parece governado pela predestinação genética, precisamos de esperança para que ainda possamos mudar”, defendeu.

Como envelhecer bem

No seu livro Aging Well (Envelhecer bem, sem edição em português), George Vaillant discute aqueles que considerou serem os indicadores que predizem um maior bem-estar em idades avançadas. Eis algumas das conclusões que o autor retirou do estudo de Harvard:

  1. As boas companhias e amizades que se fazem durante a vida têm maior impacto do que os acontecimentos negativos;
  2. Estas relações são facilitadas pela capacidade de gratidão e perdão e enriquece-nos particularmente amar uma pessoa em particular;
  3. Ter uma conjugalidade positiva aos 50 anos prediz um maior bem-estar aos 80 anos do que os bons níveis de colesterol com a mesma idade;
  4. O abuso de álcool previu consistentemente o envelhecimento mal sucedido, sobretudo por comprometer os apoios sociais;
  5. O cultivo das relações sociais, a curiosidade intelectual e as aprendizagens depois da reforma têm mais impacto no bem-estar do que o rendimento económico auferido com essa reforma;
  6. O bem-estar subjetivo, ou seja, o ‘sentir-se bem’ tem mais impacto no processo de bem envelhecer do que ter realmente saúde. O que quer dizer que uma doença crónica ou incapacidade, sendo um desafio, não têm necessariamente de comprometer a satisfação com a vida.

Ganhos versus perdas

A dialética entre ganhos e perdas, concorda Maria Alexandra Veiga de Araújo, é um dos aspetos mais importantes do envelhecimento. “ Naturalmente que chega uma fase em que as perdas se sobrepõem aos ganhos, sobretudo pelo facto de haver um declínio físico.” E o que é possível e desejável fazer quando isto acontece? “Do ponto de vista prático, passa por aceitar essas perdas e adaptar as tarefas e o que nos dá prazer à nova realidade”, explica a investigadora. “Se a pessoa gostava de correr mas já não pode, talvez o possa substituir pelas caminhadas; se já nem caminhar consegue, pode sentar-se meia hora por dia ao pé da janela a cultivar as suas memórias de quando corria ou andava”, exemplifica.

Novos significados

Identificar o que se ganha com o envelhecimento passa por redescobrir significados, explica a especialista. “Há uma fase em que podemos colmatar as perdas sozinhos, noutra é a ciência que nos ajuda, através de medicação e outros instrumentos, como andarilhos. E há outra fase em que, se estivermos bem preparados emocional e psicologicamente, se conseguirmos encontrar um novo significado nessas perdas e realizar-nos nas gerações seguintes – nos filhos, nos netos –, acabamos por encarar como natural não poder fazer uma quantidade de coisas.”

Recordar é viver

Recordar as memórias positivas – algo que intuitivamente se faz na velhice – também ajuda a dar um novo significado à vida. “Os homens mais velhos deixam de poder jogar às cartas, mas sentem-se muito felizes a contar aos netos os jogos que fizeram e a explicar-lhes as regras do jogo”, exemplifica Maria Alexandra Veiga de Araújo. “O mais importante não era ter as cartas na mão, era o convívio e ao contar aos netos mantêm esse convívio, usando as recordações do jogo”.

Evitar a solidão, sempre

“A solidão é uma das maiores tragédias humanas, mas não só do envelhecimento. Não creio que a solidão aos 80 anos seja pior ou mais violenta do que na adolescência”, defende. A investigadora lembra que “não há nada que nos aconteça aos 80 anos que seja mau porque temos 80 anos: aquilo que é mau nessa idade é-o em todas.”  Por isso, cultivar relações interpessoais positivas é algo que se deve fazer durante toda a vida, da mesma forma que devemos desde cedo trabalhar a nossa capacidade de adaptação.

 

Tome nota

Sentir-se bem é tão ou mais importante do que os problemas de saúde. Se sofre de bexiga hiperativa, aplique estes conselhos práticos para ter dias mais cómodos.

 

Colaboração

Maria Alexandra Veiga de Araújo, mestre em Psicologia Positiva e doutoranda em Políticas Sociais no âmbito do envelhecimento positivo