O processo de adaptação a uma doença crónica não é fácil, mas enfrentar a realidade é a melhor forma de lidar com a situação. Leia as recomendações da psicóloga.

Doença crónica: enfrentar o diagnóstico

É um turbilhão emocional. Ser diagnosticado com uma doença crónica despoleta um processo de crise que se equipara ao luto. “Como em todos os lutos, poderá assistir-se às várias etapas de negação e choque inicial, zanga, negociação, tristeza profunda e aceitação”, explica a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva.

Associados ao diagnóstico, a imprevisibilidade de evolução da doença, a incerteza sobre o futuro, a incapacidade gerada e as dificuldades financeiras são potenciais fatores de stress. Stress este que pode manifestar-se através de sintomas como irritabilidade, tristeza, perda de interesse em atividades de que se gostava, problemas de sono e fadiga, entre outros, enumera a Cleveland Clinic.

Procurar ajuda é “o passo mais importante que se pode tomar”, recomenda a American Psychological Association. “Quanto mais a pessoa que recebeu o diagnóstico se encarar como um agente ativo neste processo, melhores serão as condições de intervenção e prognóstico”, concorda Filipa Jardim da Silva.

O gatilho do desconforto

Após o diagnóstico de doença crónica, tem de haver um ajustamento do estilo de vida da pessoa “de modo a poder viver o melhor possível com a doença que o vai acompanhar, se não durante toda a vida, pelo menos durante grande parte da sua vida”, contextualiza Filipa Jardim da Silva.

Este é um processo sistemático que envolve estabelecer objetivos pessoais e orientar o comportamento para a sua realização. Flexibilidade mental, resiliência e inteligência emocional são competências psicológicas essenciais. Igualmente críticas são as práticas de higiene mental e auto diálogo, considera Filipa Jardim da Silva. “É essencial que a pessoa seja capaz de reconhecer, identificar, nomear, legitimar e regular as suas emoções e sensações físicas associadas a este processo de adaptação à doença”.

Tudo parece especialmente difícil num momento crítico, mas a psicóloga sublinha: “Sabemos que o desconforto é tendencialmente o maior dos gatilhos para fazermos alterações importantes na nossa vida. Com a crise e a agudização de mal-estar associados a um diagnóstico, surge a necessidade e motivação para redefinirmos prioridades. E, muitas vezes, para nos voltarmos a tratar como pessoas, com necessidades físicas e psicológicas, bem como com limites.”
 

Vencer a tendência para a fuga 

Após um processo de investigação de sintomas que representa uma fase de incógnita, um diagnóstico traz informação clara e mais objetiva, o que permite agir, delinear um plano. “Isso é verdadeiramente importante para recuperarmos alguma perceção de controlo e, consequentemente, de segurança”, realça Filipa Jardim da Silva.

Do ponto de vista psicológico, isso implica superar vários riscos. Por exemplo, o de se relativizar a situação, evitando o tratamento; o de se vitimizar; ou o de se acomodar e adaptar ao mal-estar sem procurar ajuda.

Para não cair nas armadilhas do evitamento, “cada pessoa deverá, ao longo do seu dia, reservar breves momentos para uma autorreflexão, em que seja capaz de identificar pensamentos, emoções e sensações físicas presentes, compreendendo a sua função. Com empatia e autocompaixão, esta leitura é essencial para que cada pessoa possa compreender, momento a momento, as dificuldades sentidas e os recursos que necessitará de mobilizar para as ultrapassar”, recomenda Filipa Jardim da Silva.


Colocar-se no centro

A adaptação à nova realidade não deve implicar ficar-se refém do diagnóstico. “Todos necessitamos de proativamente cuidar da nossa saúde e bem-estar físico e psicológico. Todas as mudanças realizadas devem ser legendadas dessa forma e não como estratégias remediativas na sequência de um diagnóstico”, sublinha a psicóloga clínica.

Assim, a noção de liberdade deve ser preservada. “Independentemente do diagnóstico que se recebe, teremos o livre arbítrio na maioria das situações, para decidir o que fazer: acumular mal-estar e doença ou inverter e marchar em direção a uma maior saúde e bem-estar. O objetivo é que nos coloquemos a nós no centro da nossa vida, do qual aliás nunca deveríamos sair.”

Igualmente importante é que a adaptação se dê ao ritmo de cada pessoa, de acordo com os seus recursos e necessidades. “A forma como se encara a doença em si, com mais ou menos criatividade e às vezes até um certo humor (que poderá constituir um recurso valioso) tenderá a influenciar a capacidade de ajustamento à nova realidade.”

O papel de amigos e família 

O mesmo cuidado de não reduzir a pessoa à doença deve existir por parte de quem a rodeia. “Importa que, quer profissionais de saúde quer familiares, mantenham sempre em consideração que a ligação deve ser feita à pessoa e não ao doente. Quem temos à nossa frente tem muito mais dimensões do que a sua doença. É importante não reduzirmos o outro a um diagnóstico, retirando-lhe poder de decisão e autodeterminação. Quando a rede de apoio é flexível e presente, ganha qualidade no real suporte que conseguirá dar à pessoa, com respeito pela sua individualidade.”

Assim por exemplo, “mais do que se presumir que determinado programa social não é ajustado à pessoa em questão, é preferível fazer o convite e dar-lhe a possibilidade de decidir”, considera a psicóloga clínica. E “mais do que dizer o que é e não é melhor a nível de intervenções médicas, profissionais de saúde e medicação, é mais produtivo e respeitador do outro fornecer informação recolhida para que seja o próprio a analisá-la, podendo solicitar ou não apoio.”

O isolamento social deve ser evitado. Mas, no caso de problemas com um impacto na interação social, como pode ser a síndrome de bexiga hiperativa, “importa que a pessoa se adapte o melhor possível e desenvolva estratégias de autorregulação e conforto. Numa segunda fase, poderá privilegiar a interação social em cenários de maior controlo e menor exposição pública, como a sua casa ou a de amigos próximos e familiares.”

Na prática | Como enfrentar a doença crónica:

O diagnóstico de doença crónica implica desenvolver a capacidade de enfrentar ativamente a doença. Para isso:

  • Escreva todas as dúvidas que tiver e discuta-as com o médico o quanto antes. O conhecimento preciso da situação promove o sentimento de controlo, pelo que ajuda perguntar ao médico que passos pode dar para otimizar a saúde.
  • Foque-se nos aspetos que pode controlar. Por exemplo, tomar os medicamentos prescritos se for o caso ou passar mais tempo com as pessoas que o fazem sentir-se apoiado. Procure relaxar e privilegiar a qualidade do sono e da alimentação.
  • Aprenda a gerir o stress e a ansiedade, de forma a manter uma perspetiva positiva do ponto de vista físico, emocional e espiritual. Se necessário, recorra a ajuda psicológica, de forma a evitar a depressão.
  • Passo a passo, ao implementar estas estratégias, irá reconquistando a sensação de controlo e melhorando a sua qualidade de vida.

Dica

Se é familiar de alguém com doença crónica, não se esqueça de cuidar também de si. Estes processos são muito desgastantes para os cuidadores.