A música pode ter efeitos na forma como o seu corpo reage aos mais diversos impulsos. Saiba como a musicoterapia pode ajudá-lo a gerir a ansiedade.

Em que consiste a musicoterapia

Chama-se musicoterapia e, como o nome indica, é uma abordagem terapêutica centrada na música. O seu objetivo é “desenvolver potenciais e/ou restabelecer funções do indivíduo para que ele/ela possa alcançar uma melhor integração intra e/ou interpessoal e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida, através da prevenção, reabilitação ou tratamento”, lê-se no site da Associação Portuguesa de Musicoterapia (APM). Entre os seus benefícios, refere a mesma fonte, conta-se a redução da tensão e da ansiedade, um problema que frequentemente está associado à bexiga hiperativa. Para percebermos como funciona falámos com Teresa Leite, musicoterapeuta com 25 anos de experiência e coordenadora do Mestrado em Musicoterapia da Universidade Lusíada.

O que é a musicoterapia?

“Trata-se de uma intervenção terapêutica centrada na música e na experiência musical que o terapeuta musical cria com o donte”, explica Teresa Leite. A musicoterapia tira partido do impacto da música nas emoções, no intelecto, na motricidade para comunicar com os doentes e gerar impactos positivos em diversas áreas. Esta é uma terapia muito moldada a cada caso – ao problema de cada doente e à resposta emocional específica que este dá a determinadas músicas.

A quem se destina a musicoterapia?

De acordo com a Associação Norte-Americana de Musicoterapia, “crianças, adolescentes, adultos e idosos com necessidades ao nível da saúde mental ou deficiências de desenvolvimento e aprendizagem” podem beneficiar deste tipo de terapia. Teresa Leite realça os efeitos positivos da musicoterapia no alívio da ansiedade, no relaxamento, na recuperação ou melhoria da comunicação em doentes com lesão neurológica, doença de Alzheimer, deficiência profunda, alívio da dor crónica, recuperação de traumas ou acidente vascular cerebral.

Como é uma sessão de musicoterapia?

Para doentes que consigam comunicar verbalmente, a terapia musical começa com uma entrevista ao doente. “É aqui que conseguimos perceber o que ele ouve, quais as suas experiências pessoais e relações interpessoais ligadas a determinado tipo de música, quais os seus gostos e o género musical com que mais se identifica. E é nessa zona de conforto que vamos procurar repertório musical para executar com a pessoa”, explica Teresa Leite.

As sessões assentam sobretudo em técnicas que permitem “convidar o doente a fazer música connosco e integrá-lo ativamente neste processo”, pormenoriza a musicoterapeuta.

Aprende-se a tocar instrumentos ou a cantar?

Como explica Teresa Leite, os doentes são incentivados “a participar em experiências musicais que não requerem treino, como tocar instrumentos fáceis, cantar ou dançar”. O contacto com a música – passivo ou ativo – é usado para comunicar com o doente, trabalhando a resposta emocional e física à harmonia musical. Tal pode implicar tocar instrumentos em conjunto, improvisar, cantar ou gerar um movimento ao som da música, mas não numa lógica de aprendizagem. Já o musicoterapeuta “tem de dominar instrumentos que requerem treino, como um teclado ou uma guitarra”.

Como surgiu a musicoterapia?

Segundo Teresa Leite “existem práticas registadas há muitos séculos e em várias culturas do uso da música para alívio e promoção do bem-estar”. Mas foi após a 2ª Guerra Mundial que a abordagem começou a afirmar-se em meio hospitalar. “Nos grandes hospitais onde os sobreviventes com traumas severos estavam internados, a música começou a ser trabalhada em conjunto por terapeutas, psiquiatras e psicólogos”, adianta a especialista. O primeiro curso de formação europeu em musicoterapia data de 1958, no Reino Unido, segundo dados da Federação Europeia de Musicoterapia.

Quais os benefícios da musicoterapia no alívio da ansiedade?

“A ansiedade tem uma componente muito física e a música também tem uma componente muito física. Portanto, a musicoterapia pode criar uma experiência musical com significado pessoal para a pessoa, que vá alterando o seu estado emocional e, gradualmente, permita libertar alguma dessa ansiedade”, explica Teresa Leite. Segundo a terapeuta “há peças musicais que podem melhorar a ansiedade em todos os géneros musicais” e “cantar é uma ótima regulação da respiração, que é uma técnica excelente para diminuir a ansiedade”.

Que tipo de formação tem um musicoterapeuta?

Para ser certificado, um musicoterapeuta tem de concluir um curso universitário em Musicoterapia, com a duração mínima de dois anos. No âmbito da APM existe um mecanismo de certificação recente que regula a atividade dos musicoterapeutas em Portugal. Para ser certificado, cada profissional tem de cumprir critérios mínimos de formação académica e horas de experiência profissional.

Como consultar um musicoterapeuta?

A melhor forma de garantir que vai consultar um profissional acreditado em terapia musical é contactar a APM, para que esta faça a ponte com a bolsa de musicoterapeutas acreditados. A maioria dos terapeutas musicais em Portugal trabalha em instituições de solidariedade social, embora também exerçam atividade clínica em consultórios particulares.

Quantas sessões são necessárias para obter resultados?

Tudo depende do doente, das suas necessidades, da especificidade da sua doença e dos objetivos estabelecidos. Algumas intervenções, em casos mais graves, podem chegar a demorar anos. Por norma, as sessões acontecem com uma regularidade semanal.

 

Colaboração

Teresa Leite
Musicoterapeuta e coordenadora do Mestrado em Musicoterapia da Universidade Lusíada