A síndrome de bexiga hiperativa é um problema comum mas envolto em tabus. Dos sintomas aos fatores de risco e formas de tratamento, um guia com os principais dados sobre esta condição.

O que é a síndrome de bexiga hiperativa?

Chama-se síndrome de bexiga hiperativa a um conjunto de sintomas que decorrem de uma perturbação do armazenamento da urina na bexiga, cuja causa nem sempre é identificável. Esta é uma condição que se estima que afete cerca de 1 milhão e 700 mil portugueses com mais de 40 anos e que tem um importante impacto na qualidade de vida.

“A bexiga hiperativa diminui consideravelmente a qualidade de vida, dificulta a interação social normal e reduz a produtividade laboral dos homens e mulheres afetados”, refere o Plano de Cuidados Integrados com apoio científico da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Associação Portuguesa de Urologia e Associação Portuguesa de Neurourologia e Uroginecologia.

Embora seja um problema comum, o diagnóstico e tratamento debatem-se com dificuldades. Por exemplo, o embaraço ou a ideia de que não existe tratamento podem fazer com que os doentes não se queixem. No entanto, com o envelhecimento populacional, o número de pessoas afetadas por esta condição tende a aumentar, pelo que importa quebrar a barreira da falta de informação.

1) Quais são os sintomas da bexiga hiperativa?

Urgência e frequência urinária, noctúria e incontinência urinária por urgência são os principais sintomas da síndrome de bexiga hiperativa. Este é um conjunto de sintomas que podem ter causas muito variadas, daí ser indispensável o diagnóstico médico adequado. Para isso, é essencial a consulta do médico e uma boa comunicação médico-doente.

Os dados obtidos através da entrevista clínica e eventualmente avaliações complementares como ecografia, urofluxometria, estudo urodinâmico ou diário miccional permitem fazer o diagnóstico e ajudam a eleger a melhor abordagem de tratamento em cada caso.

2) Que formas de tratamento existem?

Se for identificada a causa da síndrome de bexiga hiperativa, o tratamento do problema que está na origem pode permitir a remissão total dos sintomas. Os casos idiopáticos (sem causa identificada) podem persistir ou ter melhorias ao longo do tempo.

Os tratamentos conservadores são a primeira abordagem para a minimização dos sintomas. Aqui incluem-se o treino vesical, a alteração de hábitos alimentares, a terapia muscular do pavimento pélvico e o biofeedback. Estas abordagens devem ser vistas não só como tratamentos de primeira linha, mas também como adjuvantes de outras formas de tratamento para a bexiga hiperativa, como os fármacos.

Nos casos em que a eficácia destas abordagens seja insuficiente, é possível utilizar outros tratamentos, nomeadamente a neuromodulação de raízes sagradas ou a estimulação do nervo tibial posterior.

3) Que fatores podem limitar a adesão e continuidade do tratamento?

Por um lado, a falta de acompanhamento médico pode conduzir facilmente à interrupção do tratamento. Por outro lado, a própria história natural da doença, que ocorre com oscilações na gravidade dos sintomas ao longo do tempo, pode também contribuir para que assim seja. O abandono do tratamento da bexiga hiperativa é também influenciado pelas perceções dos doentes, seja sobre a sua eficácia e efeitos adversos ou sobre a própria doença.

4) É possível prevenir a bexiga hiperativa?

Em alguns casos de bexiga hiperativa, a causa pode ser identificada. Na maioria, porém, os sintomas não têm uma origem definida, o que faz com que a prevenção seja particularmente difícil. “Não existe evidência que suporte que a bexiga hiperativa possa ser prevenida no verdadeiro sentido da palavra. Estão sim descritos alguns fatores de agravamento que devem ser evitados, caso existam sintomas da doença”, esclarece o urologista Ricardo Pereira e Silva.

5) Quais são os fatores de risco de bexiga hiperativa?

“Indivíduos com depressão, diabetes mellitus insulino-tratada e de raça caucasiana têm um risco três vezes superior de desenvolver bexiga hiperativa”, lê-se no documento “Urologia em Medicina Familiar” da Associação Portuguesa de Urologia. Também a obesidade, a idade, as doenças neurológicas e um historial de cirurgias pélvicas são considerados fatores de risco da síndrome de bexiga hiperativa. Evitar os fatores de risco não garante que se escapará à doença. Mas “a redução dos fatores de risco da bexiga hiperativa ou da sua intensidade – naqueles que é possível intervir, como a obesidade – promove uma maior saúde da bexiga”, salienta o urologista José Santos Dias.

6) Qual o impacto da bexiga hiperativa na sexualidade?

Quem sofre de bexiga hiperativa tem mais probabilidade de sofrer de insatisfação ao nível da sexualidade. Importa, no entanto, ter noção de que os impactos da bexiga hiperativa na sexualidade são indiretos. “Tanto nos homens como nas mulheres não há uma causalidade direta entre bexiga hiperativa e problemas na sexualidade. Os problemas sexuais existem como reflexo indireto da doença, nomeadamente pelas inibições que pode causar”, salienta o urologista Manuel Coelho.

7) Que hábitos ajudam a viver melhor com bexiga hiperativa?

Fortalecer os músculos do pavimento pélvico e fazer exercícios de Kegel pode contribuir para aliviar os sintomas da bexiga hiperativa, com benefícios também ao nível da sexualidade. Igualmente importante é adotar uma alimentação saudável e protetora do trato urinário. Isso inclui minimizar a ingestão de cafeína e assegurar que bebe água suficiente. Existem também algumas rotinas que podem facilitar a gestão do dia a dia. Nenhum destes hábitos deve, no entanto, dispensar a consulta do médico, o profissional indicado para um aconselhamento direcionado a cada caso.