Uma em cada 100 pessoas desenvolve cálculos do aparelho urinário pelo menos uma vez na vida. Alguns casos requerem tratamento cirúrgico.

Pedras nos rins: prevenir e tratar

Dor lombar intensa, náuseas, vómitos, urina escura ou avermelhada. Estes são os principais sinais e sintomas da litíase renal, doença que resulta da formação de cálculos (‘pedras’) no aparelho urinário. “Quando certos componentes da urina atingem determinados níveis de concentração, eles deixam de ser solúveis e precipitam, formando cristais”, explica o urologista João Ferreira Cabral.

Embora alguns cálculos não provoquem sintomas, outros, pelo volume que atingem ou por se deslocarem, provocam obstrução do normal escoamento de urina do rim para a bexiga, causando dores bastante violentas, conhecidas como cólicas renais. “Por norma, é a dor que leva os doentes à urgência”, refere o especialista.

De acordo com a Associação Portuguesa de Urologia, uma em cada 100 pessoas desenvolve cálculos urinários alguma vez na vida. Dessas, cerca de 80% acabam por eliminá-los de forma espontânea, enquanto 20% necessitam de tratamento específico.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico da litíase renal baseia-se em exames imagiológicos – ecografias, radiografias abdominais e tomografias computorizadas. A dor na região lombar intensa, de instalação súbita e sem posição de alívio, por vezes acompanhada de náuseas e vómitos, é o sintoma cardinal da doença. “Por vezes os pacientes referem também urina escura ou com sangue e febre em caso de infeção”, explica o médico.

Por que é que se formam pedras nos rins?

O surgimento de pedras nos rins resulta da conjugação de vários fatores, muitas vezes inerentes ao próprio estilo de vida, sublinha João Cabral.  De acordo com a Urology Care Foundation, os mais comuns são:

+ Alimentação | Uma dieta hipercalórica, rica em proteínas e elevado teor de sal contribui para o aparecimento de pedras nos rins.

+ Baixa ingestão de líquidos | Este é um dos principais fatores de risco. Quando a ingestão de líquidos é reduzida, os produtos do metabolismo expelidos na urina atingem concentrações elevadas, por vezes além do limiar de solubilidade, o que resulta na sua precipitação e formação de cálculos renais.

+ Problemas intestinais | Determinadas doenças intestinais ou mesmo cirurgias do aparelho digestivo (ex.: diarreia crónica, cirurgia de bypass intestinal) aumentam a probabilidade de formação de cálculos renais.

+ Excesso de peso | A obesidade, juntamente com as alterações metabólicas que lhe estão associadas, é também um importante fator de risco para a formação de cálculos renais.

+ Medicamentos | Embora seja raro, alguns fármacos podem potenciar a formação de pedras nos rins.

+ História pessoal e familiar |As pessoas cujos pais ou avós sofreram de litíase renal têm um risco aumentado de vir a ter a doença. Pode ser por doenças genéticas (raras) ou, mais comummente, pela partilha de determinados estilos de vida e padrões de alimentação. O mesmo acontece com pessoas que já foram diagnosticadas no passado, uma vez que a doença tende a recorrer.

+ Outras patologias | Algumas doenças renais pouco comuns, como a cistinúria, a acidose tubular renal, também aumentam o risco de formação de cálculos nos rins.

Quais podem ser as consequências da litíase renal?

A consequência mais grave da litíase renal é a perda de função do rim afetado, geralmente associada à obstrução crónica do sistema excretor. “Isto ocorre quando os cálculos impedem a passagem da urina para jusante, criando pressões elevadas no sistema excretor, o que progressivamente leva à destruição do parênquima (tecido essencial e funcional) renal. As pielonefrites (infeções do rim) também podem ocorrer e, no caso de existir obstrução concomitante do sistema excretor, constituem verdadeiras urgências urológicas, uma vez que a evolução do quadro pode ser catastrófica”, explica João Cabral. Felizmente estes são “cenários são cada vez mais raros”, garante o médico. “O tratamento é hoje muito mais acessível e eficaz.” 

É possível eliminar totalmente as pedras dos rins? 

Sim, “esta é uma das áreas da urologia (endourologia) que mais evoluiu nos últimos anos”, garante João Cabral. O tratamento depende essencialmente do tamanho e da localização dos cálculos. Alguns tipos de cálculos (úricos) são mesmo passíveis de tratamento exclusivamente farmacológico. “Hoje em dia, recorremos exclusivamente a procedimentos minimamente invasivos”, afirma João Cabral. “Uma parte muito significativa dos casos é mesmo tratada com cirurgia pelos orifícios naturais – sem necessidade das tradicionais incisões cirúrgicas na pele –, com recurso a tecnologia sofisticada.” Estas são as formas de tratamento:

  • Litotrícia por ondas de choque

Utiliza-se sobretudo para cálculos com uma dimensão inferior a 15 mm. Através da emissão de ondas de choque gera-se um conjunto de vibrações que acabam por fragmentar os cálculos. Estes são depois expelidos pela urina.

  • Ureterorrenoscopia

Abordagem que recorre à exploração endoscópica do aparelho excretor, através dos orifícios naturais, para destruir os cálculos existentes com recurso a fontes de energia como o laser de holmium.

  • Cirurgia por via percutânea

É a solução geralmente recomendada para pacientes com cálculos de maiores dimensões – mais de 2 cm. Implica uma pequena incisão na região lombar.

É possível prevenir a formação de pedras nos rins?

Ter um estilo de vida saudável é fundamental para evitar o aparecimento e a recorrência da doença, garante o médico. Estas são as principais recomendações deixadas pelo especialista:

  • Opte por uma alimentação abundante em vegetais, fruta e cereais, não esquecendo a ingestão abundante de água.
  • Evite dietas ricas em proteínas bem como alimentos demasiado salgados, como enchidos, queijos e outros produtos processados.
  • Mantenha um peso adequado.
  • Pratique exercício físico.

Já tive/tenho pedras nos rins. O que devo fazer para evitar a recorrência?

A mudança do estilo de vida é muito importante para impedir o aparecimento de novos cálculos, sublinha o urologista. “Além da recomendação de medidas de caráter geral – reforço da ingestão de líquidos, controlo de peso e alimentação cuidada –, faz-se um estudo metabólico para determinar a necessidade de uma abordagem mais individualizada. Pode haver indicação para fazer alterações específicas na alimentação ou para a toma de fármacos, com vista a reduzir a excreção ou aumentar a solubilidade de certos componentes da urina”, acrescenta.

3 litros

Quantidade de água que os adultos devem beber diariamente, para garantir a produção de pelo menos 2,5 litros de urina. Especialmente aqueles com antecedentes de pedras nos rins, recomenda a Urology Care Foundation.